
Junho de 2019. A TruckPag tinha dois meses de operação, poucos clientes, um time pequeno e nenhuma sala onde duas pessoas pudessem conversar em particular.
Foi nesse mês que o Felipe começou a trabalhar com a gente, em meio período, no comercial.
Junho de 2019, o Felipe em três lugares ao mesmo tempo
O Felipe dividia o dia em três. Uma parte era a TruckPag, meio período. Outra era o trade de mini dólar. E nas horas que sobravam ele rodava como motorista de aplicativo.
Era assim que ele fechava o mês. Cada uma daquelas frentes pagava uma parte das contas, e nenhuma sozinha pagava todas. Ele tinha montado a própria renda em três pedaços, e isso exige uma disciplina que pouca gente enxerga de fora.
E ele era bom no que fazia com a gente, mesmo em meio período. Aprendia rápido, organizava o que pegava e tinha um jeito com as pessoas que não se ensina em treinamento. Numa empresa que nem corredor tinha, com todo mundo dividindo o mesmo espaço, era ele quem fazia a pergunta que ninguém tinha feito.
Ele fazia bem o trabalho dele. O limite era o momento da empresa, que precisava de mais do que meio período de qualquer pessoa pra conseguir crescer.
A primeira conversa, do lado de fora
Chegou a hora de conversar de verdade. Sem sala, qualquer conversa séria ali dentro seria pública.
Então chamei ele pra fora.
Disse que ele estava com um pé em cada canoa, e que as canoas estavam indo pra lados opostos. Uma hora ele ia cair na água. Pedi que escolhesse uma e colocasse os dois pés dentro.
Tem uma parte dessa conversa que eu preciso contar com honestidade, porque sem ela o pedido parece ultimato de patrão.
Tinha pra oferecer apenas o sonho de a empresa crescer. Nenhuma garantia de remuneração maior, de cargo, de nada que eu pudesse prometer com segurança.
E estava pedindo a ele exatamente o que eu mesmo já tinha feito. Pouco tempo antes tinha saído de uma posição de executivo para empreender, depois de mais de dez anos no mercado financeiro. Na última empresa em que trabalhei eu era PJ, então saí sem rede, apostando tudo numa empresa que ainda não tinha provado que ia durar. As duas apostas eram sem garantia, e eram diferentes. Eu era sócio, tinha participação no que a empresa viesse a valer. Ele ia abrir mão de uma renda que funcionava sem ter parte nesse resultado.
O que eu pensava naquele momento era bem simples. Pra empresa crescer, não dava pra ter gente pela metade na equipe. Ou tinham que estar inteiro, ou não podiam estar. A gente precisava de dedicação total, e não havia outro jeito de pedir isso.
O Felipe não hesitou e ficou integral. Fez a escolha sem pedir tempo pra pensar.
E isso teve custo, que eu não quero esconder. Ele trocou uma renda que funcionava por uma aposta que podia dar errado. Se a TruckPag não vingasse, ele teria aberto mão de tudo por nada. Quem pagou o risco dessa conversa foi ele, bem mais que eu.
A primeira missão foi a mais difícil possível
Logo depois entreguei a ele uma tarefa que não fazia sentido nenhum dar a quem nunca tinha trabalhado com o assunto.
Tirar a CIOTPag do papel.
CIOT é o código que registra a operação de transporte, regulado pela ANTT, com exigência técnica, prazo e fiscalização. Pra operar aquilo, a empresa precisava estar habilitada como instituição de pagamento eletrônico de frete. Não é área de improviso, e o Felipe não conhecia nada daquilo.
Ele leu a regulação inteira, do começo ao fim. Era uma regulação técnica, escrita pra quem já é do ramo, lida por alguém que tinha acabado de chegar nele. Depois montou a operação e fez funcionar.
E fez funcionar de um jeito que diferenciou a empresa. A norma da ANTT exigia que a emissão do CIOT fosse gratuita e feita pela internet, e permitia que a empresa cobrasse por outras soluções associadas ao cadastramento. A gente ofereceu todas de graça, por integração com o sistema do cliente, por telefone, por e-mail e por WhatsApp, do jeito que fosse mais fácil pra quem estava do outro lado. Isso saiu de quem tinha acabado de aprender a regra, e aprendeu bem o bastante pra ir além dela.
Tem um lado ruim nessa história, e ela fica mentirosa sem ele. A CIOTPag funcionou de 2020 até agosto de 2024, quatro anos atendendo transportador, e foi encerrada naquele ano. A decisão foi tomada junto com os sócios e as lideranças, com saída gradual, depois que uma mudança no marco regulatório da ANTT tornou a operação inviável pra gente. O produto acabou por regra externa. A operação que ele montou funcionava.
O Felipe segue aqui. A CIOTPag não. A aposta tinha sido nele, e ela continuou valendo depois que o produto saiu de cena.
Menos de dois anos depois, a segunda conversa
A empresa cresceu, e chegou o dia em que eu precisei de alguém no financeiro.
Financeiro é outro mundo, feito de rotina diária, conciliação, fornecedor, banco e risco, e erro ali aparece no caixa no dia seguinte. Era uma cadeira que pedia um perfil bem diferente do que ele vinha fazendo. E a empresa já não era a de dois meses, tinha muito mais a perder se o caixa fosse mal cuidado.
Chamei ele pra conversar de novo, e de novo do lado de fora. Dessa vez a gente já estava na segunda sede, com duas salas de reunião, e as duas viviam ocupadas de tanto trabalho que havia.
A resposta dele foi essa, e eu reproduzo como ele disse: “vou contigo onde for, se tu me pedir, vendo até esse barro que estamos pisando. Estou contigo”.
As duas conversas pediram a mesma coisa, e elas não foram iguais.
Na primeira, pedi uma escolha a alguém que ainda não tinha provado nada, e ele topou sem saber no que ia dar. Na segunda, pedi a mesma disposição a alguém que já tinha entregado, e ele topou de novo, agora sabendo exatamente o tamanho do que estava aceitando.
O custo da segunda também existiu. Ele saiu de uma área que já dominava pra recomeçar do zero numa área que não conhecia, com a cobrança de quem já tinha provado competência em outra coisa. Aprender de novo, depois de ser bom, pesa mais do que aprender pela primeira vez, porque agora existe uma reputação em jogo.
Hoje
O Felipe é o nosso Diretor Financeiro e um dos braços em que eu mais confio, numa empresa que hoje tem quase 200 pessoas.
O comercial de meio período que rodava aplicativo pra fechar o mês hoje senta na diretoria de uma empresa que transaciona bilhões de reais em diesel por ano. Entre uma ponta e outra houve duas conversas, com menos de dois anos entre elas, e duas escolhas. Nas duas ele escolheu ficar inteiro, e nas duas a escolha custou alguma coisa pra ele.
O que ficou dessas duas conversas
Já escrevi sobre contratar pronto ou formar em casa, que é a pergunta de onde vem a pessoa certa. Este texto é sobre outra coisa, que vem antes dessa escolha. É sobre a pessoa estar inteira no que faz, venha de onde vier. O que segue saiu de um caso e de um momento da empresa.
1. Naquele momento, a empresa precisava de gente inteira mais do que de gente pronta. Competência dava pra formar, e o Felipe mostrou isso aprendendo CIOT do zero. O que uma empresa de dois meses não conseguia era crescer com a atenção das pessoas dividida, por mais que cada uma entregasse bem o que fazia.
2. Só dá pra pedir a alguém a aposta que você mesmo já fez. Quem pede precisa estar exposto também, ainda que a aposta de cada um seja diferente, e precisa reconhecer que a do outro pode ser maior. Pedir exclusividade de uma posição segura, sem oferecer nada em troca, costuma soar como ameaça, e na maior parte das vezes é.
3. Ter duas rendas por necessidade é sobrevivência, e o momento da escolha é outro. Quem divide o dia entre vários trabalhos pra pagar as contas está fazendo o que precisa ser feito. O pedido de escolha só fez sentido no nosso caso porque apareceu uma aposta real que justificava abrir mão da segurança, e a decisão foi dele.
Perguntas frequentes
Dá pra crescer numa empresa trabalhando em outra coisa ao mesmo tempo?
Dá, quando a outra frente é pequena e não compete pela mesma energia, ou quando é um período de teste com prazo combinado. Fica difícil quando as duas exigem o melhor da pessoa ao mesmo tempo, porque aí nenhuma recebe o melhor. A pergunta útil é qual das duas você quer que cresça. A outra pode estar pagando as contas enquanto isso, ou pode estar te atrasando.
Quando é justo pedir dedicação exclusiva a alguém?
Quando quem pede está correndo o mesmo risco, e quando a pessoa tem condição real de escolher. Pedir exclusividade a quem depende de duas rendas pra viver, sem oferecer nada que compense, transfere pro colaborador um risco que devia ser da empresa. E quando quem pede não tem nada pra oferecer, como eu não tinha em 2019, o mínimo é estar correndo o mesmo risco e dizer isso com clareza. Sobre o que a empresa precisa oferecer em troca, escrevi em plano de carreira.
Como saber se alguém está realmente comprometido?
Observe como a pessoa lida com o que ainda não sabe. No caso do Felipe, foi ir direto à regulação da ANTT e ler inteira, numa área que ele nunca tinha visto antes. Compromisso aparece mais no esforço de aprender do que no discurso, e aparece cedo, bem antes de qualquer avaliação formal. Quem lidera e presta atenção costuma enxergar isso nas primeiras semanas, no jeito como a pessoa trata um problema que ninguém atribuiu a ela.
O que a empresa precisa oferecer pra poder pedir compromisso?
Caminho visível de crescimento, acompanhamento de perto e reciprocidade. Nenhuma das três custa dinheiro, e todas custam atenção de quem lidera. Quem lidera precisa estar tão exposto quanto quem é liderado, e precisa cumprir o que prometeu mesmo quando a promessa foi só o sonho de crescer junto. Sem isso, o pedido de compromisso vira cobrança de mão única. Com quem está começando a carreira isso pesa ainda mais, porque nessa fase a promessa de crescer costuma ser o principal motivo pra ficar.
Meio período atrapalha a carreira de quem está começando?
Depende do que o meio período permite. Se ele paga as contas enquanto a pessoa aprende, funciona como ponte. Se vira permanente numa empresa que precisa de gente inteira, vira teto, porque as decisões importantes vão pra quem está ali o dia todo. A hora de conversar é quando a empresa começa a precisar dessa pessoa mais do que o meio período deixa ela dar. E liderar bem é perceber isso antes de cobrar.
Se você está diante de uma escolha dessas, de um lado ou do outro da conversa, e quer trocar ideia, me chama no LinkedIn, no Instagram ou por e-mail.