Em 2022, recebi uma proposta pra vender a TruckPag. A negociação começou em fevereiro e foi até março. Foi longe. Valuation enviado, o outro lado mapeando a empresa, o processo começando a ganhar forma.
Eu disse não. E faria de novo.
A TruckPag é uma logtech bootstrap, quase 200 pessoas hoje, construída sem investidor desde 2019. Em 2022, tinha três anos de operação quando a proposta chegou.
Não escrevo isso como quem despreza dinheiro. Escrevo como quem olhou pro número, sentiu o peso, e mesmo assim disse não. Quem diz que recusa uma proposta dessas sem sentir nada, mente. Eu senti. E é justamente por ter sentido que essa decisão significa alguma coisa.
A proposta que chegou perto
Não foi conversa de corredor. Foi negociação séria.
A TruckPag tinha três anos. Era nova, mas já mostrava pra onde podia ir. A proposta chegou, o valuation foi enviado, e o outro lado começou a mapear a empresa por dentro. O tipo de movimento que mostra que não era sondagem. Era intenção real de comprar.
Seis anos antes daquilo, eu tinha conta atrasada. No artigo sobre como começar um negócio, contei como foi 2016. Aluguel atrasado, água atrasada, luz atrasada. Seis anos depois, tinha uma proposta de compra na mesa, com um número que mudaria a minha vida e a da minha família. A vida vira rápido. E quando vira, ela testa o que você de verdade quer.
A primeira coisa que fiz foi ligar pro Ivo, meu sócio. Era a minha primeira vez nesse tipo de negociação. Liguei pra informar o interesse e ouvir o que ele achava. E o Ivo me trouxe uma orientação que ficou comigo até hoje. Que esse tipo de conversa é importante pra aumentar a maturidade da companhia e das pessoas. Que nunca se deve fechar as portas. Que se deve sempre receber bem o mercado, conversar, manter boa relação institucional.
Depois daquela ligação, eu e o Ivo conversamos pessoalmente, ele me orientando ao longo de todo o processo. O Carraro, meu outro sócio, ajudou com visão de mercado, sempre pelo lado comercial, falando o que pensava da companhia e o que via nas andanças dele.
No fim, decidimos não seguir em frente. Mas aquela negociação foi uma experiência fundamental pra minha evolução como fundador. Aprendi mais sobre a minha própria empresa naquele processo do que em vários meses tocando ela no dia a dia.
O que pesou no não
Não foi teimosia. Foi clareza do que a empresa é.
A TruckPag não nasceu pra ser vendida rápido. Nasceu pra durar. A visão é de 50 anos, não de 5. E quando você constrói pensando em 50 anos, uma proposta de saída no ano três não conversa com o que você está fazendo.
Não nascemos pra ser vendidos.
Vender significaria trocar uma construção de longo prazo por liquidez imediata. Significaria entregar a cultura, o time, o jeito de atender o transportador 24 horas por dia, pra alguém que talvez não tivesse o mesmo cuidado com nada disso. Quem compra, compra o número. Nem sempre compra o propósito. E o propósito é justamente o que faz a TruckPag ser o que ela é.
Não é que o dinheiro não importe. Importa. Mas tem o que o dinheiro paga e tem o que vem depois do dinheiro. Quem vende perde o controle do que construiu. E naquele momento, como até hoje, o que a gente está construindo valia mais que o cheque.
Faturamento é vaidade. Valuation também. O número que aparece numa proposta de compra é a foto de um momento, não a medida do que a empresa pode se tornar. No artigo sobre indicadores de gestão, falei que faturamento sozinho é vaidade e o que importa é caixa e propósito. Valuation entra na mesma conta. É um número bonito que não paga a falta que faz olhar pra trás e perceber que você vendeu cedo demais.
No artigo sobre bootstrap growth, contei por que escolhemos crescer sem investidor. Recusar a venda é a mesma decisão, vista de outro ângulo. Em vez de abrir mão de controle pra entrar dinheiro, a escolha foi manter o controle e construir no nosso ritmo.
Tem coisa que eu não publico aqui no blog. Erros que ainda estou processando, decisões de bastidor, histórias que só conto por e-mail.
Por que isso não é fanatismo
Tem uma coisa importante pra deixar clara aqui. Recusar aquela proposta não é fechar a porta pra sempre.
Hoje não queremos vender, mas isso não quer dizer que talvez em algum momento não venderemos. Cada momento é um momento.
Não procuramos investidor. Mas não somos fechados a um parceiro de mesmos propósitos. Se aparecer alguém que compartilha a visão de longo prazo, que entende o transportador, que respeita a cultura que a gente levou anos pra construir, a conversa existe. O Ivo tinha razão. Não se fecha a porta. Se recebe bem o mercado e se conversa.
E aqui é importante eu ser claro sobre uma coisa. Não tenho nada contra quem vende empresa por um número. Cada um faz o que quer com o que construiu. Tem gente que cria uma empresa já com o propósito de fazer ela crescer e vender, e está tudo certo nisso. É um caminho legítimo, e dos bons. Talvez eu mesmo faça empresas assim um dia, com a venda no plano desde o início.
A TruckPag é que não é esse caso. Ela não foi feita pra ser vendida. Foi feita pra durar. Não é uma regra que eu acho que todo mundo devia seguir. É só a escolha que eu fiz pra essa empresa específica, pelo que ela representa pra mim, pros sócios e pro transportador que confia na gente.
Quando recebo uma proposta, a pergunta que importa não é o tamanho do número. É se quem está do outro lado quer construir junto ou só comprar e seguir. São dois caminhos diferentes. Pra TruckPag, hoje, só o primeiro me interessa.
O que eu enxergo que vender cedo custa
O mercado celebra o exit. O fundador vende, vira notícia, todo mundo aplaude o sucesso. Ninguém pergunta o que veio depois.
E vender está em alta. Segundo o relatório anual da Bain & Company, divulgado pelo Times Brasil, o mercado de fusões e aquisições no Brasil movimentou cerca de US$ 51 bilhões em 2025, uma alta de 8% sobre o ano anterior. Tem muita empresa sendo comprada e vendida. O que torna a decisão de não vender ainda mais contracorrente.
Quantos fundadores venderam, ficaram ricos, e se perderam? Quantos viram a empresa que construíram virar outra coisa, perder a alma, demitir o time que os trouxe até ali? Essa parte não vira post comemorativo no LinkedIn. Mas acontece muito mais do que se fala.
Conheço a sensação de olhar pra um número grande e sentir o coração acelerar. É real. O dinheiro resolveria coisas, abriria portas, daria segurança. Negar isso seria desonesto. A questão nunca foi se o dinheiro era bom. Era se valia o que vinha junto.
Vender cedo custa o que não volta. O controle. A cultura. A chance de ver até onde aquilo podia chegar. Você troca o filme inteiro pelo trailer. Pega o dinheiro de uma empresa de três anos sem nunca saber o que ela seria aos dez, aos vinte, aos cinquenta.
Tem decisão difícil que você toma pra construir e tem decisão difícil que você toma pra preservar. Desligar alguém é difícil e necessário pra proteger o time. Recusar uma venda é difícil e necessário pra proteger o propósito. As duas doem. As duas são parte do trabalho.
Não estou dizendo que vender é errado. Pra muita gente, no momento certo, é a decisão mais acertada do mundo. Tem fundador que construiu, chegou no limite do que queria, e a venda foi a coroação justa de um trabalho bem feito. Isso é legítimo e bonito.
Pra mim, o número nunca foi a única conta. Quando a proposta chegou, a pergunta que eu me fiz não foi sobre o valor. Foi sobre o motivo. “Eu venderia porque é o melhor pra TruckPag, ou porque seria a saída mais fácil num momento de cansaço?”
No meu caso, a resposta foi clara. Não era o melhor pra empresa, era só o caminho mais curto pro dinheiro. E eu não estava cansado de construir. Estava no começo. Por isso o não veio fácil depois que entendi isso. Cada fundador tem a própria resposta, e a minha, naquele momento, foi não. Cansaço é humano, ninguém é obrigado a carregar uma empresa pra sempre, e quem vende por isso fez uma escolha tão válida quanto a minha. Só não era a minha.
Eu não quis correr esse risco. Olhei pra TruckPag, pro time, pro transportador que confia na gente todo dia, e entendi que ainda tinha muito filme pra assistir. A visão é de 50 anos. Estávamos no ano três.
Perguntas frequentes
Vale a pena vender a empresa? Depende do momento e do motivo. Vender pode ser a decisão certa quando o fundador chegou no limite do que queria construir, ou quando aparece um parceiro de mesmo propósito que acelera a missão. O erro é vender só pelo número, sem considerar o que se perde em controle, cultura e potencial futuro.
Quando faz sentido aceitar uma proposta de compra? Faz sentido quando a venda serve ao que foi construído, não só ao bolso de quem vende. Um parceiro que compartilha a visão de longo prazo e respeita a cultura é diferente de um comprador que enxerga só o número. O timing e o alinhamento de propósito importam tanto quanto o valor.
O que é valuation? Valuation é a estimativa de quanto uma empresa vale, usada em negociações de compra, venda ou captação. É um número de um momento, influenciado por mercado, expectativa e estratégia. Não é a medida definitiva do que a empresa pode se tornar.
Empresa bootstrap pode recusar investimento e ainda crescer? Pode. A TruckPag cresceu de zero a quase 200 colaboradores sem captar investimento externo, gerenciando mais de R$ 2,2 bilhões em abastecimento por ano. E foi além de crescer organicamente. Em vez de receber aporte, a própria TruckPag investiu, comprando participação na 3Sat, uma empresa de tecnologia. Ou seja, bootstrap não só sustentou o crescimento como gerou caixa pra investir em outro negócio. Exige mais disciplina de caixa e mais paciência, e o controle e a cultura ficam nas mãos de quem construiu. É mais lento que crescer com dinheiro de fundo, e é uma escolha legítima.
A porta que escolhi manter
Recusei vender minha empresa em 2022. Faria de novo.
Mas a porta não está trancada pra sempre. Está trancada pra qualquer um que não compartilhe o propósito. Quem chegar com a mesma visão de longo prazo, com o mesmo respeito pelo que a gente construiu, encontra um Kassio aberto pra conversar. Quem chegar só com um cheque, encontra um não educado e firme.
Construir uma empresa é a coisa mais difícil que já fiz. Já escrevi sobre as várias faces disso. Como ser um bom líder de verdade. Cultura organizacional que sustenta o time. Gestão operacional pra rodar a máquina. Rotatividade de funcionários e o trabalho de reter gente boa, dar o feedback que ninguém quer dar e abrir plano de carreira de verdade. Recusar uma venda é só mais uma dessas decisões difíceis. A diferença é que essa tem um número grande do outro lado puxando pra resposta fácil.
Se você é fundador e está pensando em vender, ou já recusou e se questiona, me manda no LinkedIn, no Instagram ou por e-mail. Esse é um daqueles assuntos que só quem viveu entende.
Tem coisa que eu não publico aqui no blog. Erros que ainda estou processando, decisões de bastidor, histórias que só conto por e-mail.
Propósito acima de lucro. Constância acima de velocidade. Cada momento é um momento.
Kassio Seefeld é CEO e cofundador da TruckPag, logtech brasileira bootstrap desde 2019. Lidera quase 200 pessoas e escreve sobre o que vive, não o que lê. Saiba mais sobre o Kassio.
