Saí de um Bom Emprego pra Empreender Quebrado

Eu saí de um bom emprego pra fundar a TruckPag. E fiz isso carregando um buraco financeiro que vinha se arrastando havia anos.

Aluguel atrasado, água atrasada, luz atrasada.

Não estou usando força de expressão. Era isso, ao pé da letra. Em 2016, eu tinha cargo bonito no LinkedIn e aluguel atrasado em casa. Os dois ao mesmo tempo. E foi carregando esse peso que eu larguei o emprego, apostei, e deu certo. Mas quase ninguém conta a parte difícil dessa história. Conta só o final feliz, o crescimento, os números. A parte de baixo, a do buraco, fica escondida. Vou contar essa parte.

Eu era superintendente comercial e de operações numa empresa de meios de pagamento. Cargo bom, salário previsível, futuro pela frente. Não era carteira assinada, eu era PJ, então não vou te vender que larguei uma estabilidade que eu nem tinha. Mas era um bom emprego, do tipo que a maioria das pessoas trabalha anos pra alcançar. Larguei. Pra construir algo do zero, no pior momento financeiro que eu já vivi.

No artigo sobre como começar um negócio, contei a parte da construção da empresa. Aqui conto a parte de dentro. O medo, o buraco, e o que me fez arriscar mesmo com tudo jogando contra.

O buraco que eu carregava

Vou ser honesto sobre uma coisa que não é confortável de admitir.

Por volta de 2016, eu estava com a vida financeira desorganizada. Não era um aperto de um mês. Era um buraco que se arrastava. Aluguel atrasado, água atrasada, luz atrasada. Meu filho mais velho tinha acabado de nascer, e eu olhava pra aquele bebê sabendo que as contas da casa não estavam fechando.

Isso durou quase três anos. Não foi um tropeço, foi um período. E carregar isso com uma família crescendo do lado é um peso que aperta o peito de um jeito que quem nunca passou tem dificuldade de entender. Não é só dinheiro. Custo de oportunidade não é planilha. É noite mal dormida, conversa difícil com a esposa, e a vergonha silenciosa de ter um bom cargo e mesmo assim não conseguir pagar as contas em dia.

Eu não vou romantizar essa fase. Não tem nada de bonito em dever. Não foi uma escolha corajosa passar por ali, foi uma situação que eu vivi e que precisei enfrentar. A diferença é o que eu fiz com ela.

Organizei as contas aos poucos, com muito trabalho, pouco antes de fundar a TruckPag, no início de 2019. Mas seria mentira dizer que comecei a empresa com a vida resolvida. Comecei do jeito que dava, sem estar com as contas certinhas. A primeira transação foi em abril de 2019. O aluguel daquele mês saiu no aperto. A estabilidade financeira não tinha voltado. O que tinha voltado era um pouco de fôlego, e mesmo esse pouco eu apostei.

Por que sair mesmo assim

A pergunta óbvia é: por que largar um bom emprego bem no meio de tudo isso?

A resposta começa dentro da própria empresa onde eu trabalhava. Atendíamos frota leve. Um dia chegou um cliente de frota pesada, a Transvale, uma transportadora de Cascavel. Eu quis atender, fui com tudo. Mas o sistema da empresa não dava conta da realidade do transportador. O atendimento ia só até as 20h, e caminhão roda de madrugada. Não tinha recolha de nota fiscal, que é obrigatória pra frota pesada. A rede credenciada era urbana, e caminhão precisa de posto de estrada.

O contrato não fechou. E foi exatamente ali, no contrato que não deu certo, que eu vi a oportunidade da minha vida passar na minha frente. Existia uma dor enorme, real, de um setor inteiro, que ninguém estava resolvendo direito. O transportador era mal atendido porque os sistemas tinham sido feitos pensando no carro de passeio, não no caminhão.

Essa dor não era segredo. O Ivo enxergava, o Carraro enxergava, a própria empresa onde eu trabalhava sabia que o transportador era mal atendido. Muita gente via o problema. O que eu tive não foi a ideia exclusiva, foi o ímpeto. A coragem de propor, de assumir a frente e dizer que eu era capaz de tirar aquilo do papel se eles topassem ser meus sócios. Sem glamour, sem ego. Eu não fui o único a enxergar a oportunidade. Fui o que levantou a mão e disse “eu construo”.

Levei a proposta pro Ivo, que tinha a Transvale. Ele hesitou no começo, achou que era mercado difícil, com gente grande. Cerca de duas semanas depois, me ligou decidido pra falar de sociedade. Se cheguei até aqui, foi porque a sociedade era boa desde o primeiro dia. Eu trouxe o ímpeto, eles trouxeram a experiência e o lastro. Sozinho, talvez eu nem tivesse tido coragem.

Eu passei cerca de seis meses dentro da Transvale antes de tudo, entendendo a operação por dentro. Fiscal, frota, financeiro, comercial, manutenção, filial. Passei por todas as áreas. A TruckPag nasceu incubada ali dentro, numa transportadora real, com o fundador aprendendo a operação na pele, não na teoria. Sem pitch deck, sem PowerPoint. Um problema e uma oportunidade. Não saí do emprego pra “ter uma ideia”. Saí porque já tinha visto a dor de perto e sabia que dava pra resolver.

No artigo sobre bootstrap growth, contei como a gente cresceu sem investidor. Tudo começou aqui, vendo uma dor que o mercado tratava mal.


Tem coisa que eu não publico aqui no blog. Erros que ainda estou processando, decisões de bastidor, histórias que só conto por e-mail.


O sim que veio antes de tudo

Tem uma parte dessa história que não é minha sozinho. É da Dani, minha esposa.

Quando eu finalmente tive coragem de sentar e conversar, expliquei tudo. A oportunidade, o risco, a mudança de cidade, o aperto que já vínhamos vivendo e o aperto maior que viria. Disse que a decisão era dos dois, porque era. A resposta dela foi curta.

“Se tu acha que é bom pra nós, pro nosso futuro, vambora.”

Sem drama. Sem lista de condições. Sem “vou pensar”. Vambora. Eu estava propondo trocar o pouco de segurança que a gente tinha por um salto no escuro, e ela respondeu com uma confiança que eu não sei se mereço até hoje.

Em maio de 2019, mudamos pra Cascavel. Celina com um ano, Vicente com três, sem nenhuma rede de apoio, a 800 quilômetros da cidade onde a gente nasceu. No Rio Grande do Sul, a Dani trabalhava como maquiadora. Em Cascavel, ela abriu mão de trabalhar pra se dedicar inteira às crianças, enquanto eu rodava estrada atrás dos primeiros clientes.

Todo empreendedor celebra captação. Poucos celebram quem ficou ao lado quando não tinha nada pra captar. A conquista não é minha. É nossa.

A diferença entre coragem e loucura

Sair de um bom emprego endividado parece loucura. E teria sido, se eu tivesse pulado no escuro. Mas não foi isso que aconteceu.

Tem uma linha fina entre coragem e loucura, e ela não está em pular ou não pular. Os dois pulam. A diferença está em pular tendo estudado a queda ou pular sem olhar pra baixo.

Eu não larguei no vácuo. Quando saí, eu já tinha visto a dor do transportador de dentro da Transvale, com os meus próprios olhos. Já tinha passado meses entendendo a operação por dentro. Tinha a Transvale como primeiro cliente e como lugar pra testar o que eu ia construir. Tinha sócios dispostos a entrar no risco comigo. E eu não era um estranho ao mundo dos negócios. Vinha de anos no setor financeiro, banco, cooperativa de crédito, meios de pagamento. O que era novo pra mim era o transporte. Transporte rodoviário de carga eu não conhecia de dentro, e foi por isso que passei meses dentro da Transvale antes de qualquer coisa. Não apostei num setor que eu dominava. Apostei num setor que eu estudei de perto até entender, sabendo que a minha bagagem financeira ia ajudar a resolver uma dor que ninguém tinha resolvido.

Nada disso tirava o risco. O buraco financeiro era real, o medo era real, a possibilidade de dar errado era real. Mas uma coisa é apostar tudo num palpite. Outra é apostar numa oportunidade que você estudou, viu de perto e entendeu melhor que qualquer um. As duas são apostas. A diferença é que uma você faz de olhos fechados, e a outra você faz sabendo exatamente onde está pisando.

Começar é decisão, não inspiração. Em novembro de 2018, a TruckPag era só um CNPJ. Um número no papel, sem produto, sem cliente, sem nada. O que transformou aquele número numa empresa não foi um estalo de gênio. Foi a decisão de tocar, todo dia, mesmo com medo e mesmo apertado.

Coragem, pra mim, é isso. Não é ausência de medo. É agir apesar do medo, quando a razão diz que a oportunidade vale o risco. Loucura é agir sem a razão, só no impulso ou no desespero. Eu estava com medo, estava apertado, mas não estava no escuro. Sabia exatamente no que estava me metendo, e por isso pulei.

E tem um detalhe que pouca gente considera. Ficar parado também é uma decisão, e também tem risco. Eu poderia ter ficado no emprego, seguro, e visto outra pessoa construir o que eu enxerguei. O risco de agir todo mundo vê. O risco de ficar parado é silencioso, ninguém enxerga, mas ele existe. A oportunidade que você não pega não aparece no extrato, mas cobra o preço do mesmo jeito. Coragem de verdade é olhar pros dois lados antes de decidir. O medo só enxerga um.

O que eu não recomendo copiar

Agora a parte que preciso deixar bem clara, porque não gosto quando transformam história de empreendedor em receita de bolo.

Eu não recomendo que ninguém saia de um bom emprego com as contas atrasadas. Eu fiz, deu certo, mas poderia ter dado muito errado. Se tivesse dado errado, essa história seria sobre um cara irresponsável que arriscou o sustento da família num momento que não devia. O resultado é que define como a história é contada, e o resultado nunca é garantido.

Cada caso é um caso. Tem gente com uma família dependendo só do seu salário, com uma situação que não permite risco nenhum naquele momento. Pra essa pessoa, segurar o emprego e construir a saída com calma pode ser a decisão mais sábia, não a mais covarde. Não tem nada de errado em não pular.

O que eu defendo não é a imprudência. É não deixar o medo decidir sozinho quando a oportunidade é real e foi estudada. Tem hora de segurar e tem hora de arriscar, e a única pessoa que pode saber qual é a sua hora é você, olhando pra sua realidade com honestidade. A minha hora chegou num momento financeiro péssimo, e mesmo assim era a hora certa, porque a oportunidade era real e eu a conhecia por dentro. A sua pode ser completamente diferente.

Desconfie de quem vende a ideia de que largar tudo é sempre a resposta. Geralmente quem vende isso ganha com o seu risco, não corre nenhum.

Perguntas frequentes

Vale a pena largar o emprego pra empreender? Depende da sua realidade e do quanto você conhece a oportunidade. Largar por impulso ou por insatisfação, sem ter estudado o negócio, é arriscado demais. Largar por uma oportunidade real que você viu de perto e entende bem é outra conversa. Não existe resposta única, existe a sua situação específica.

Como saber se é hora de sair do emprego pra abrir um negócio? Quando você conhece a dor que vai resolver melhor do que conhece o conforto que vai deixar. Se a oportunidade foi estudada, se você viu o problema de perto e sabe que dá pra resolver, o risco passa a ser calculado. Se é só vontade de sair sem um plano concreto, provavelmente ainda não é hora.

Dá pra empreender sem reserva financeira? Dá, mas é muito mais difícil e arriscado. Eu fiz, mas não recomendo como caminho ideal. O ideal é ter um colchão que dê fôlego nos primeiros meses. Quando não dá pra ter, a margem de erro fica menor e a pressão maior, e isso cobra um preço pessoal alto.

O que é mais arriscado, empreender ou depender de um emprego? Os dois têm risco, só que de naturezas diferentes. O emprego dá previsibilidade, mas coloca o seu futuro na mão da decisão de outra pessoa. Empreender dá controle, mas tira a previsibilidade. Não existe caminho sem risco, existe o risco que você escolhe correr.

O que ficou dessa decisão

Saí de um bom emprego no pior momento financeiro da minha vida, e hoje toco uma empresa de quase 200 pessoas. Mas a lição que eu tiro disso não é “seja corajoso e dê certo”.

A lição é estudar a queda antes de pular. Foi isso que separou a minha decisão de uma aposta desesperada. Eu estava quebrado, mas não estava cego. Tinha estudado a dor de perto, tinha por onde começar, e tinha a Dani ao lado dizendo vambora. O buraco financeiro tornou tudo mais difícil e mais assustador, mas não tornou a decisão menos informada.

Construir empresa é cheio dessas decisões que ninguém vê por trás do resultado. Já escrevi sobre várias. Como começar um negócio do zero. Por que recusei vender anos depois. Por que não sou o maior acionista e fiz as pazes com isso. Como ser um bom líder, cultura organizacional, gestão operacional, indicadores de gestão, rotatividade de funcionários, como dar feedback, plano de carreira e como demitir um funcionário.

Se você está pensando em largar um emprego pra empreender, ou já largou e está no meio do aperto, me manda no LinkedIn, no Instagram ou por e-mail. Essa fase é solitária, e às vezes ajuda saber que alguém já passou por ela.

Tem coisa que eu não publico aqui no blog. Erros que ainda estou processando, decisões de bastidor, histórias que só conto por e-mail.

Estude a queda antes de pular. Depois, pule com tudo.


Kassio Seefeld é CEO e cofundador da TruckPag, logtech brasileira bootstrap desde 2019. Lidera quase 200 pessoas e escreve sobre o que vive, não o que lê. Saiba mais sobre o Kassio.